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Brasília: trajetória do carro que marcou a história

Entrevista: Sandra Riva
Imagens: Publicidade VW

Data: 07 de Novembro de 2007

 

Fusca e Karmann-Ghia deram cara e formato ao veículo; em nove anos, pelos menos 1 milhão de unidades foram vendidas para mundo.

Na década de 70, a pedido do presidente da Volkswagen no Brasil, Rudolf Leiding, o estilista de carros da multinacional Márcio Piancastelli recebeu o desafio de projetar um veículo que oferecesse conforto e comodidade para a família. A única recomendação: pequeno por fora e amplo por dentro e com a confiabilidade do Fusca. Então, mãos à obra... Estava lançada a chance de produzir o primeiro automóvel, exclusivamente, nacional - a Brasília.

Com lápis e folha na mão, Piancastelli começou a traçar o carro com base no modelo do Fusca, mas a figura ficou muito estreita. Depois, utilizou o formato do Karmann-Ghia, o resultado: “Ganhamos largura”, lembra o ex-estilista. Do início ao fim, foram mais de quarenta tentativas até chegar ao esboço final.     

Depois de pronto o projeto no papel, o segundo passo: construir o modelo de arame rígido e amarra-lo em uma espécie de gaiola para obter a visualização do espaço e das proporções da parte de dentro do veículo. Por fim, o revestimento com gesso e a pintura com tinta automotiva. “Tínhamos de montar tudo: banco, painel. Foi um trabalho de co-produção”.

E, mesmo assim, o responsável por chefiar o projeto não quer nem ouvir falar em título de inventor da Brasília: “Não foi uma invenção porque foi feito em cima de um modelo de Fusca como, por exemplo, o motor traseiro”.

Acompanhe a entrevista do ex-projetista de veículos da Volkswagen do Brasil Márcio Piancastelli que revela à jornalista Sandra Riva, fatos intrigantes sobre o automóvel, as dificuldades para concluir o projeto e, ainda, faz críticas à automação.

 


SANDRA RIVA: A Brasília surgiu após o fenômeno Fusca e da necessidade de apresentar um carro diferente, já que os concorrentes na época estavam lançando seus modelos, como o Chevette, da General Motors. Como foi essa criação? De onde surgiram as idéias como, por exemplo, capacidade do motor, características estéticas?
MÁRCIO PIANCASTELLI: O presidente da Volkswagen do Brasil Rudolf Leiding queria um carro pequeno por fora como o Fusca, com vidros grandes e que pudesse andar por todos tipos de terrenos.

SANDRA RIVA: Na época era difícil se sobressair entre os estrangeiros, pois o Brasil não tinha o conceito de país produtor de estilos de carros.
MÁRCIO PIANCASTELLI: Era difícil. Fomos em 76 para a Alemanha apresentar a Brasília e o projeto do carro SP II , mas o sindicato alemão tinha restrições com estrangeiros e praticamente brecaram o projeto. Além do problema da crise do petróleo de 73, em que não podiam fabricar um carro esporte em época de crise, pois não era viável. O (Rudolf) Leiding mandou nossos desenhos para a Porsche. Eles mexeram no motor e nós fizemos, aqui, o projeto do SP II, que era um derivado da Variant, com motor dianteiro do Passat. Pena que não vingou!
Existia muito preconceito, quando nós chegamos lá em 76, o chefe de estilo da fábrica da Alemanha criticou a Brasília, um produto todo nacional. O Jota, que era também um estilista da Volks na época, disse: - O senhor critica a Brasília, mas fomos nós que fizemos. E vocês? Que não fizeram o Golf (carro que estava substituindo o Fusca) ? Ele ficou calado!

SANDRA RIVA: Qual seria a diferença da Brasília II para o primeiro modelo?
MÁRCIO PIANCASTELLI: O que iria sair diferente da Brasília era o motor dianteiro, chegamos a fazer até um protótipo com refrigeração a água. Era um carro maravilhoso, inclusive o desempenho, não vingou por causa do projeto do Gol (que não era todo nacional). Isso foi em 76. Continuamos pesquisando o motor dianteiro para a Brasília, inclusive para o projeto do Gol (dizem que quem testou o protótipo da Brasília II com motor dianteiro falou que era melhor que o Gol. Era mais largo).

SANDRA RIVA: O senhor apontaria algo que pudesse ter mudado na Brasília?
MÁRCIO PIANCASTELLI: Sim, o motor. Gostaria que fosse na frente, é muito barulhento. Quando ia viajar com minha família para Belo Horizonte, o carro ia lotado.

SANDRA RIVA: O que o senhor acha dos novos modelos e conceitos?
MÁRCIO PIANCASTELLI: As formas dos carros de hoje são muito estranhas, os carros são redondos, como se alguém tivesse cortado com um machado. Gosto muito dos carros conceito, por exemplo, um carro da Volks que estava exposto numa feira em Nova York: as portas abrem para cima.

SANDRA RIVA: De quais outros projetos o senhor participou?
MÁRCIO PIANCASTELLI: O meu primeiro projeto foi o TL. O (Rudolf) Leiding ficou satisfeito, porque na Alemanha já existia um TL que foi feito em cima de um outro carro 1.600 Hatch. Ele falou que queria um no Brasil.
Lembro que era setembro e ele queria o protótipo pronto para o fim do ano. Pegamos uma Variant, cortamos o teto (perto da traseira), nem fizemos o desenho, foi direto.
Colocamos madeira na estrutura, gesso e em três meses o protótipo estava pronto com chapa e pintura.
O presidente então nos chamou no escritório, na diretoria da Volkswagen que ficava no Ipiranga, tirou o talão de cheque e foi chamando um por um para dar uma bonificação em dinheiro. Em dinheiro, hoje, seria mais ou menos R$ 5 mil. Nunca tinha visto isso!

SANDRA RIVA: O senhor lembra de algo interessante, engraçado que aconteceu ao longo desses anos?
MÁRCIO PIANCASTELLI: Foi relativo ao modelo aprovado do SP II. No desenho, não representava tanto, mas na maquete, que era 1 X 4 (o tamanho do desenho é multiplicado por 4),  o nariz do carro ficou muito comprido. Ia ficar com um metro de frente de carro, o que na verdade era pra ficar com 40 centímetros.
E o pior era que o diretor de engenharia tinha dado ordens para que a maquete ficasse guardada em um quarto fechado, onde ninguém pudesse mexer.
Eu pensei: - Minha nossa senhora! Como vamos consertar isso ai? Vamos perder esse projeto?
Reunimos o pessoal e trabalhamos por 4 horas no corte da maquete, refizemos tudo para ninguém perceber. No dia seguinte, o Leiding pediu pra ver a maquete. Ele olhou e não percebeu nada. Talvez até tenha reparado, mas não achou ruim. O outro diretor da Volkswagen, o Paulo Ivani, se percebesse daria a maior bronca.

Outro fato engraçado, é que esse mesmo diretor tinha medo de que nós fizéssemos os desenhos coloridos. Ele não queria que fossemos artístico, queria que fossemos mais técnicos e que se nós fizéssemos colorido, nos mandaria embora. No dia em que fomos apresentar os desenhos do SP II para o Leiding julgar, fizemos alguns coloridos e ele adorou. No dia seguinte, o Ivani foi falar que não ia nos mandar embora porque o Leiding gostou dos desenhos coloridos, mas que, na verdade, devia ter mandado o Jota (integrante da equipe) embora. E eu respondi que deveria ter me mandado também, porque fui eu que mandei ele colocar desenhos coloridos.

 

BOX:

Marcio Lima Piancastelli trabalhou como projetista de veículos durante 28 anos. Hoje, trabalha como designer de eletrodomésticos e está empenhado em um projeto que resgata a história dos tipos de automóveis do último século.
Por ser encabulado ou até mesmo na época mal informado em relação a patentear marcas, deixou de lançar um carro que havia desenhado há muitos anos, o que, hoje, seria semelhante ao carro Uno, da Fiat.

 



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